terça-feira, 19 de agosto de 2025

agosto 19, 2025


85 ANOS DEPOIS DE SEU ASSASSINATO, TROTSKY AINDA É O CARA

Diante dessa conjuntura, nos 85 anos do assassinato de Trotsky, 21 agosto de 1940, por ordem de Stalin, surge a necessidade de um reencontro com a obra do dirigente, ao lado de Lênin, da Revolução Socialista Russa de 1917 e organizador do Exército Vermelho, que venceu forças militares contrarrevolucionárias apoiados por catorze países na guerra civil. Trotsky conseguiu unir, em sua defesa das lições da Revolução de Outubro e do internacionalismo proletário, uma frente única composta de estranhos aliados de ocasião como liberais, conservadores, fascistas, social-democratas, anarquistas e é, óbvio, seu tenaz inimigo, o stalinismo com seu aparato burocrático. Mesmo assim, seu nome se destaca ao lado de dirigentes revolucionários e intelectuais marxistas como Lênin, Rosa Luxemburgo, Gramsci e Lukács.

 

Embora o nome de Trotsky, como o de Lênin, não seja palatável nas universidades, não se pode pensar o mundo atual, na perspectiva política radical da emancipação humana, isto é, do comunismo, sem dialogar com ele, adjetivado por um de seus principais biógrafos de profeta.


Esse adjetivo não foi ato de uma simples admiração de discípulo ou crença sobrenatural, mas evidência da sensibilidade analítica Trotsky em perceber a realidade com a arquitetura teórica do materialismo histórico a partir de uma imersão profunda na luta de classes de seu tempo.

 

 Trotsky identificou, em 1905, as coordenadas do futuro processo revolucionário russo baseado na legalidade histórica do desenvolvimento desigual e combinado, o que ficou conhecido como “teoria da revolução permanente”. 


Trotsky antecipou, também em 1905, a função futura dos sovietes (conselhos operários) como órgãos de auto-organização dos trabalhadores, expressão da independência de classe e a possibilidade de se constituírem como estruturas de poder.


Trotsky percebeu, na luta interna no Partido Comunista da URSS, a tendência do fracasso e isolamento da Revolução de Outubro caso vencesse a fração stalinista, representante política da burocracia emergente, com sua teoria antimarxista do “socialismo num só país”.


Trotsky vislumbrou a vitória do nazismo e, consequentemente da barbárie, como resultado das políticas divisionistas do stalinismo e da social-democracia em se negarem a construir uma frente única no movimento operário alemão para deter o crescimento das hordas nazistas.


Trotsky indicou a emergência da hegemonia do imperialismo estadunidense no sistema imperialista mundial, fruto do enfraquecimento dos imperialismos europeu (Alemanha, Inglaterra e França) e do imperialismo japonês, além das tendências para a estruturação de um “Estado forte” e a absorção das contradições mundiais do capitalismo pelos EUA. 


Trotsky, em relação à China, apreendeu as contradições de seu processo revolucionário e sua dinâmica, na década de 1920, o que serviu de base para lapidar a teoria da revolução permanente, mostrando as possibilidades de revolução socialista nos países atrasados ou periféricos da América Latina, Ásia e África.


Trotsky prognosticou a inevitável derrota do movimento operário como consequência da política stalinista de “Frentes Populares” (hoje, frentes amplas) e da divisão da revolução em “etapas”, o que desarmava o protagonismo dos trabalhadores. Pois, descartando a experiência da Revolução Russa, o stalinismo reeditava as teses mencheviques de aliança estratégica com a burguesia, na década de 1930, como da França (1934-1936) e na guerra civil espanhola (1936-1939).


Essas contribuições de Trotsky ao marxismo e ao movimento operário-popular se tornaram efetivas e vigentes não só para o movimento comunista trotskista, chamado por Trotsky, em seu tempo, de bolchevique-leninista, mas para a luta de classe pelo socialismo. Isso porque a história do século XX confirmou o legado revolucionário de Trotsky.


Nos países periféricos como China, Coreia, Vietnã e Cuba, por exemplo, evidenciou-se os mecanismos da teoria da revolução permanente. A revolução socialista só foi vitoriosa porque houve um movimento interno de superação dos limites de uma revolução democrática para uma revolução socialista, implicando um rompimento estratégico com a burguesia e o imperialismo. 


A lógica da revolução socialista permaneceu, também, nos países imperialistas, contra as concepções stalinistas e social-democratas. Na Europa Ocidental no imediato fim da Segunda Guerra Mundial (1945), como na França e Itália, houve um processo revolucionário que foi detido por concessões inéditas ao movimento de massas (Estado de Bem-estar Social) e pela capitulação das direções do movimento operário (PCs stalinistas e social-democracia). 


A tática de Frentes Populares (frente amplas) propugnada pelo stalinismo continuou colhendo derrotas e sepultando possibilidades de revolução socialista, onde foi aplicada: na Europa ocidental no imediato pós-guerra, com Partido Comunista Italiano (PCI) e o Partido Comunista Francês (PCF), na Revolução do Cravos em Portugal de 1974, no Chile em 1970-1973, na Nicarágua em 1980 e, no Brasil no ciclo de governos do Partido dos Trabalhadores (PT).


A ausência de uma direção revolucionária internacional limitou a articulação dos processos revolucionários nacionais. Sob ordem de Stalin, a III Internacional (Internacional Comunista) foi dissolvida em 1943 para não provocar o imperialismo. O que não adiantou nada, pois em 1948 as provocações imperialistas desataram a Guerra Fria. Isso contribui para o atraso de processos revolucionários vitoriosos, que quando ocorreram não se expandiram numa perspectiva mundial, levando-os ao isolamento e à burocratização.


Os Estados operários como URSS, Leste Europeu e China chegaram a um impasse, o que levou a maioria à restauração do capitalismo, devido a crise econômica e política causada pela burocracia, camada social que tomou a direção política do proletariado. Mesmo assim, os Estados operários sobreviventes sustentam-se sobre processos revolucionários que expropriaram a burguesia e o imperialismo, garantido condições de vida para a maioria da população que cada vez mais parecem sonhos se comparadas com as condições sociais de trabalhadores até do chamado “Norte global”.


Isso que foi dito até aqui, indica como a denominada orientação trotskista, fundada nas conquistas teóricas e programáticas de um dos dirigentes da Revolução Socialista de 1917, conseguiu apanhar a linha mestra do desenvolvimento da luta de classes no século XX. 


Nessa perspectiva, Trotsky ainda tem muito a disser aos trabalhadores e oprimidos no século XXI. Sua derrota política e assassinato levantam o dedo acusador para a política vencedora da fração stalinista, que conduziu o movimento comunista internacional a sucessivas derrotas, que hoje reverberam no cotidiano dos que tudo produzem.


Frederico Costa, professor da UECE

segunda-feira, 18 de agosto de 2025

agosto 18, 2025





UMA REPUBLICAÇÃO NECESSÁRIA

Nesta semana, nosso excelente Miguel Angelo Azevedo Nirez, cumprindo seu papel de memorialista, registrou a data da morte do filósofo Gustavo Barroso, e o fez corretamente, dando sequência aos registros que faz diariamente de datas relacionadas à nossa história.
Problema é que logo apareceram os comentários de admiradores do pensador antissemita nazifascista cearense.
Por isso acho adequado republicar uma crítica que fiz a um pequeno livro do professor Diatahy Menezes sobre a vida do nazifascista. O post original que republico é de 19/6/2023.

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Agora, enquanto esperava atendimento da gerência do banco, li o pequeno ensaio de Diatahy Menezes, Gustavo Barroso - um cearense "ariano" (2006, Museu do Ceará).
O título faz a promessa de uma visão mais crítica sobre o personagem, mas o ensaio biográfico é decepcionante.
E não só porque é pouco elucidativo, mas também porque o professor Diatahy passa um pano gigante para o pensador fascista cearense, tratando seu período de maior militância na extrema-direita como uma espécie de acidente no geral de sua biografia política, mas também reiterando uma queixa acerca do tratamento dado a Barroso pela historiografia em função de sua inclinação ideológica.
Mas curiosamente, ao contrário dos comunistas, esquerdistas e democratas, que pagaram duramente pela resistência ao Estado Novo, Barroso não perdeu por muito tempo nenhum único privilégio ou cargo, mesmo tendo conspirado e participado de duas tentativas de golpe de Estado.
Ao fim do período Vargas, Barroso estava lépido e fagueiro à frente do Museu Nacional e da Academia Brasileira de Letras, como se nada tivesse acontecido.
Sem falar no tratamento simpático que Diatahy dispensa ao perfil humano de Barroso.
A título de justiça, Diatahy não deixa de citar todas as posições fascistas e racistas de Barroso, expressos principalmente no seu período de membro da alta cúpula do Integralismo.
Aos que não sabem, Gustavo Barroso representava a "ala direita" do Integralismo. Enquanto Plínio Salgado macaqueava os modos de Mussolini, Barroso era da vertente hitlerista da Ação Integralista Brasileira.
A relativa simpatia pelo personagem da parte do autor aparece logo na dedicatória do livro, feita a seus filhos e onde se refere a Barroso como "um homem que amou estranhamente sua sofrida e bela Terra da Luz". Na abertura do capítulo "O Integralista Antissemita", Diatahy escreve: "Com o movimento revolucionário de 30, é evidente que Gustavo Barroso, homem conservador e amante da ordem e da disciplina, saiu politicamente disprestigiado"...e o caso de perguntar cearensemente ao professor: diabeisso? As pessoas "amantes da ordem e da disciplina" teriam salvo conduto para aderir ao fascismo? Esta característica diminui a responsabilidade de Barroso por sua opção consciente ao hitlerismo?
Enfim, Barroso ainda precisa de uma biografia que lhe faça justiça como um nazifascista que envergonha o estado do Ceará.
PS: Entre uma série de atitudes criminosas, inclusive atacar fisicamente uma operária grevista no RJ, Barroso traduziu e fez publicar a célebre falsificação antissemita intitulada "Protocolo dos Sábios do Sião" e o libelo racista de Henry Ford, "O Judeu Internacional".

Eudes Baima, professor da UECE

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Sem anistia, nem aos fascistas vivos, nem aos mortos!
agosto 18, 2025

CARTA N.º 4 SOBRE A CONJUNTURA: ALGUÉM FALOU IMPERIALISMO?


 

Fábio José de Queiroz

 

INTRODUÇÃO

 

Nesta carta, analiso as últimas semanas nas quais os Estados Unidos, sob o governo de Donald Trump, decidiram taxar e sancionar o Brasil à luz de motivações políticas e econômicas, trazendo, depois de algum tempo, o tema do imperialismo das páginas amareladas dos livros para o centro da conjuntura política. É disso que eu trato na Carta n.º 4: Conjuntura e Imperialismo (com uma necessária contextualização histórica).

 

IMPERIALISMO?

 

Demétrio Magnoli, o reacionário comentarista da Globo News, militou no movimento estudantil na mítica Liberdade e Luta (Libelu). Não é surpreendente, portanto, que, ao romper com o seu passado de esquerda, uma das primeiras atitudes adotadas por Magnoli foi opor-se à categoria histórica do imperialismo. Para ele,   

 

[...] o conceito de imperialismo – uma formulação de origem liberal, assimilada pelo marxismo no curso de sua subordinação ao pensamento nacionalista – completou a sua evolução singular, transformando-se em lugar comum ideológico destituído de qualquer interesse analítico (Magnoli, 1995, p. 426).

 

E assim ocorreu com muitos “ex-esquerdistas”, convertidos ao credo liberal e a outros valores e crenças que a burguesia desenvolveu ao longo de seu domínio. Só que um dos traços da época imperialista é a existência continuada de nações opressoras e nações oprimidas, e a névoa teórica que oculta esse fato é a que, em regra, vem dando origem a numerosos equívocos.

De modo particularmente incisivo, a agressiva política imperialista de Trump, o caubói fora da lei, em lugares tão distantes e distintos entre si, a exemplo do chamado Oriente Médio e do Brasil, é apenas um mero exemplo de que o esquematismo antimarxista de negar o imperialismo se desmancha no ar.

 

IMPERIALISMO E QUESTÃO NACIONAL NA TRADIÇÃO MARXISTA

 

A chamada questão nacional marcou fortemente os debates entre os marxistas. Rosa Luxemburgo e Karl Radek defendiam que esse era um problema que se encerrara no século XIX no contexto das revoluções burguesas. Lênin, ao contrário, sustentava que esse tema mantinha toda a sua gravíssima atualidade na época imperialista, e, desse modo, não era uma questão resolvida. Assim, nos primeiros congressos da III Internacional, Lênin e Trotsky deram grande relevância a esse tema, que, desenvolvido nas “teses sobre as questões nacional e colonial” e nas célebres “teses sobre o oriente”, se tornou uma questão de primeira ordem para os comunistas/socialistas ao longo do século XX, alcançando o XXI. 

No Programa de Transição, Trotsky esgrimiu a tese de que as principais tarefas nos países coloniais e semicoloniais, no plano imediato, passava pela defesa da independência nacional e da transformação radical da estrutura agrária. No plano prático, chegou a afirmar que, em uma disputa entre o Brasil de Vargas e o imperialismo “democrático” britânico, os revolucionários deveriam ficar ao lado do Brasil como nação oprimida.

Esse problema retomou a praticidade mais de 40 anos depois, durante a Guerra das Malvinas, quando o marxista argentino Nahuel Moreno, ainda em meio à ditadura militar, defendeu que era necessário apoiar a Argentina contra a Inglaterra, incondicionalmente. 

Note-se que, nas mais diferentes circunstâncias, mesmo entre os marxistas, essa questão não foi tratada como um ponto pacífico. Independentemente disso, contudo, o que se evidencia é que, dessa complexa situação, deve ser extraído que a questão nacional não se concluiu no século XIX, como acreditavam Luxemburgo e Radek, mas ela permaneceu (e permanece) como uma das questões mais candentes da atual época histórica, tal como se depreende dos pressupostos de Lênin e dos primeiros congressos da III Internacional.

Assim, a defesa incondicional dos povos oprimidos mantém-se como ponto programático de qualquer organização que, à luz da experiência histórica, apoia as suas posições no arsenal marxista, que as consolidou levando em consideração um sem-número de discussões e controvérsias, o que demonstra o caráter proativo do marxismo.

 

UM BREVE EXEMPLO HISTÓRICO NO BRASIL

 

A última vez que o Brasil esteve sob o ataque do imperialismo ianque, com esse grau de brutalidade, foi às vésperas do golpe de 1964. À época, a defesa de uma nação oprimida entrou na ordem do dia. Quantas pessoas decididamente de esquerda, no entanto, não se recusaram a se posicionar ao lado de João Goulart diante das investidas do imperialismo estadunidense? Alegavam que o programa liberal do ministro da fazenda, Santiago Dantas – o Plano Trienal, marcado por um rigoroso corte de gastos –, era uma demonstração não só do caráter “liberal”, mas também “pró-imperialista” do governo nacionalista-burguês. Desse modo, ele estaria inabilitado politicamente a mudar o seu rumo e de defender o país.

Goulart, no entanto, fez aprovar no Congresso Nacional a sua proposta de controle da remessa de lucros e, depois, lançou o seu programa de reformas de base. Em seguida, foi derrubado por um golpe de Estado amparado pelo imperialismo estadunidense.

A história é permeada de exemplos assim, em que determinado agrupamento político ou determinada personagem avança para além de seus piedosos desejos. Atualmente, na academia, intelectuais profissionais costumam ressaltar que a história não ensina nada. Em parte, é verdade, principalmente para quem não quer aprender.

 

BRASIL: COLONIALISMO E SEMICOLONISMO NO CONTEXTO DO IMPERIALISMO

 

A condição da base econômica e da realidade financeira brasileira me leva a concluir que o Brasil é um país semicolonial, periférico ou subordinado no plano das relações internacionais. Desse modo, a defesa apenas condicional da soberania brasileira, nas condições atuais, de domínio do capital financeiro e de sua manifestação na forma do imperialismo contemporâneo, é um erro gritante.

O colonialismo imperialista é uma das razões históricas da situação de dependência de economias como a brasileira. Em vista disso, a contraposição do governo Lula da Silva às sanções do déspota Donald Trump assume objetivamente um caráter anticolonialista, malgrado os seus evidentes limites. Aqui é preciso observar ser impossível compreender a história do imperialismo sem levar em conta a sua natureza colonialista. Decorre desse fato que a luta contra o colonialismo assume um caráter de incondicionalidade. 

Isso expresso, o mundo vive, neste momento, uma situação política potencialmente explosiva, que pode conduzir tanto a um golpe contra o colonialismo de natureza imperialista quanto a um desenvolvimento piorado da condição colonial, a exemplo do que acontece com o povo palestino.

Tal como se apresenta o problema, a situação enfrentada pelo Brasil não era completamente imprevista, ainda que fosse naturalmente improvável delinear como e quando ela iria se manifestar. Ela se manifestou, e agora?

 

O ATAQUE IMPERIALISTA AO BRASIL

 

Este é um dado, de fato, incontroverso: o Brasil está sob um ataque do imperialismo ianque. Há guerras e guerras. Os marxistas aprenderam com Clausewitz que a guerra é a política por outros meios. Mas o que é a guerra comercial ou econômica se não um modo particular de manifestação da política por outros meios?

O ataque de Trump abriu um atalho para revelação da natureza rapace do imperialismo para amplas parcelas das massas populares. Por forças das circunstâncias, o governo Lula foi além do que poderia supor a vã filosofia do esquerdismo vulgar.

Lula irá mais longe? É uma hipótese pouco provável; lembro, contudo, que a história está cheia de hipóteses poucos prováveis que, objetivamente, se consumaram. Tudo isso dependerá da evolução dos fatos da luta de classes, não apenas no terreno nacional, mas também em escala internacional.

Em todo caso, é necessário substituir a sociologia abstrata pela política concreta. Assim sendo, é indispensável se solidarizar com as medidas adotadas no âmbito político e institucional e defender, no rastro dessas medidas, um programa anti-imperialista, que levante a defesa da unidade dos povos da América Latina e do Caribe frente à política de rapinagem de Trump. O Brasil não tem como se defender sozinho.

As medidas programáticas defendidas por um marxista, seguramente, vão além do que o governo calcula ser essencial e inevitável. A única forma desses dois movimentos convergirem é a luta de classes se acelerar e escalar novos patamares. Está longe disso acontecer, todavia, a situação atual não estava nos cálculos mais otimistas. Como escreveu Goethe, a teoria é cinza; verde é a árvore da vida

Até que ponto as coisas podem avançar não depende apenas de vontade política, mas ela é um componente básico do complexo encadeamento que constitui uma dada conjuntura. Agora, trata-se de testar a política. O que não é possível é assistir aos acontecimentos como meros comentaristas da luta de classes. Ação e palavra devem corresponder rigorosamente. Os expectadores costumam ajudar a história a vir de lá para cá; a tarefa de um marxista é de conduzi-la daqui para lá. 

Dito isso, é preciso estar ao lado da autodeterminação do povo brasileiro e da soberania nacional que lhe é inerente; isso de forma incondicional. O que não impede que cada organização, no campo da esquerda, siga a luta por um programa que reflita as reais necessidades da classe trabalhadora, e não as da Faria Lima. Mesmo isso, hoje por hoje, começa pela defesa incondicional do Brasil diante do imperialismo estadunidense.

 

POIS É, ALGUÉM DISSE IMPERIALISMO?

 

Como quer que seja, se alguém disse imperialismo, falou certo, sem tirar, nem pôr. Não acidentalmente foram proferidas as palavras de Luís Inácio Lula da Silva: “Não é um gringo que vai dar ordens a este presidente”. Nessa perspectiva, é necessária uma política estreitamente ligada a essa situação, e não a uma anterior ou a do futuro. Essa é uma face do problema frequentemente negligenciada. Por isso, a indagação “E se o governo trair e capitular” não pode ser a base inicial de uma política concreta.

Para uma avaliação correta e necessariamente crítica do governo de Lula, é forçoso partir de seus acertos no embate contra Trump. Do contrário, o mais talentoso dos revolucionários conversará somente com os seus pares, desprezando o diálogo com milhões de pessoas que foram despertadas para o tema da luta anti-imperialista.

Essas pessoas, aliás, não chegaram até aqui depois de ler as teses sobre as questões nacional e colonial da III Internacional. A pedra de toque foi a atitude correta que o governo adotou perante o tarifaço e o intervencionismo imperialista nos negócios internos do Brasil. Qualquer que seja o juízo crítico que se queira formular acerca do governo do país – o que é inteiramente justo e legítimo –, deve partir dessa constatação primária.

Lula, na prática, reafirmou um velho princípio do nacionalismo neste país: Brasil com “z” jamais. É daqui que tomo impulso para afirmar que a luta anti-imperialista escalou no Brasil. O mundo inteiro olha pra cá, inclusive da Europa (que capitulou vergonhosamente ao Trump) e mesmo dos Estados Unidos.

Essa oportunidade não pode ser perdida, até do ponto de vista da educação política de milhões de pessoas. Mas é também uma oportunidade para exigir do governo a compensação recíproca pelos estragos na economia nacional (e não apenas proteger o grande capital). A incidência operatória dessa medida depende menos dos socialistas e comunistas do que do governo, aliás enredado pelo caráter limitante da frente ampla.

As credenciais democráticas do governo Lula são nítidas. A questão de até que ponto ele será consequente na luta democrática e anti-imperialista é um problema que só será resolvido no terreno das forças em disputa. Não obstante aos limites do governo, o fato é que, por um caminho original, em parte, o tema do imperialismo voltou à torna, e para retomar o fio do anti-imperialismo, não se pode menosprezar essa situação.

 

CONCLUSÕES PROVISÓRIAS

 

É possível que tenha que voltar ao tema do imperialismo em outro momento. Faltou aqui, por exemplo, examinar o papel da extrema-direita bolsonarista como braço do imperialismo ianque no Brasil. Faltou também examinar os temas do Supremo Tribunal Federal (STF) e da mídia. Creio que não faltará chance para abordar esses assuntos.

De tudo que escrevi, parto para algumas conclusões que julgo essenciais. A primeira delas é que o trumpismo é um projeto político autocrático, antipopular, racista, xenofóbico e colonialista, para ficar apenas em um pequeno número das suas facetas. É ele que está à frente do ataque às economias do mundo, e, em particular, da brasileira. De feito, Trump golpeia um país importante dos BRICS, reforça a balança comercial norte-americana e ainda atende aos interesses de seu grupo-satélite no Brasil: o bolsonarismo.

A segunda conclusão, decorrente da primeira, é que a defesa do Brasil e o enfrentamento a Trump são semelhantes no que toca ao futuro do país, que, na hipótese do triunfo do trumpismo, passaria de uma semicolônia privilegiada a um degrau abaixo dessa condição. No limite, isso implicaria não só um reforço nos alicerces da dependência, mas um enfraquecimento do Estado brasileiro no concerto das nações.

Por fim, só o futuro poderá mostrar até onde o governo será capaz de ir em sua defesa da independência nacional. Daqui a um tempo será justo indagar: “O que foi que conseguimos?”. Atualmente, contudo, a questão é: “O que podemos fazer para enfrentar as sanções estadunidenses e escudar a nossa autodeterminação como povo e nação?”. Essa questão, desde um ponto de vista leninista, não pode ser objeto de condicionalidade. Em suma, a luta contra a sujeição imperialista não é só necessária, é incondicional.

 Fábio José de Queiroz

REFERÊNCIA

MAGNOLI, Demétrio. As origens da guerra fria. In: COGGIOLA, Osvaldo.  (org.). Segunda Guerra mundial: um balanço histórico. São Paulo: Xamã/FFLCH-USP, 1995. 

domingo, 3 de agosto de 2025

agosto 03, 2025

Epstein e Trump eram amigos durante os anos 1990 e 2000.


O CASO EPSTEIN: HÁ ALGO DE PODRE NO IMPÉRIO

                                                                                 

O presidente Trump mais uma vez ganha os holofotes do mundo inteiro. Desta vez, é personagem de uma história que abala o mundo dos bilionários e de políticos norte-americanos — o Caso Epstein.


Conforme reportagem, publicada no dia 24 de julho de 2025, no site G1, o Caso Epstein está sendo investigado por envolver abuso sexual de jovens comandado por bilionários que constariam num documento denominado “lista de Epstein”. Sobre o Caso, Trump teria prometido divulgar tal documento. Contudo, o episódio sofre uma reviravolta quando, o próprio presidente dos Estados Unidos é acusado de integrar a “lista de Epstein”.


O nome dado a lista é de um bilionário, amigo de Trump, que tinha conexões importantes com personalidades influentes no âmbito financeiro, político e econômico. Epstein morreu numa prisão em Nova York, em 2019, acusado de ser a figura de proa da rede de prostituição de meninas menores de idade. (G1, 2025).


O articulador e principal doador da campanha de Donald Trump, Elon Musk, ao sair do governo, denuncia que o presidente também participava do esquema de exploração sexual.

 

Qual o impacto do escândalo do “Caso Epstein” para o governo Trump? O caso Epstein tende, no mínimo, a arranhar o mandato de Donald Trump e possui ingredientes que colocam em relevo toda a podridão política e moral, não só do presidente, mas dos círculos dirigentes políticos e econômicos dos Estados Unidos — Bill Clinton, do partido democrata; membros do partido republicano; os multimilionários dos Estados Unidos; e até das elites dirigentes da União Europeia. O que o caso Epstein revela é que, por trás de todo moralista empedernido há sempre um grande patife. Além disso, indica fraude ideológica cristã conservadora e moralista que acoberta os interesses antidemocráticos e antipopulares da extrema direita. 


O documentário Inside Jobs (Trabalho Interno), que recebeu diversos prêmios, mostrou como os CEOs das grandes empresas têm um consumo conspícuo e suntuoso — com diversas mansões de milhões de dólares, aviões executivos, festas com prostituição regadas a muita cocaína — competindo entre si nessa farra nababesca, enquanto a classe trabalhadora dos Estados Unidos amarga décadas de arrocho salarial, precárias condições de trabalho desde o final dos anos 1970. 


Lembremos que um dos argumentos centrais para retirar impostos dos ricos e bilionários nos Estados Unidos foi a “teoria” Trickle Down, vale dizer, a ideia do gotejamento, ou seja, deixando os ricaços empresários livres de impostos, estes, em tese, investiriam mais na economia, e isto no final beneficiaria a todos porque a economia cresceria e os empregos também.


Bem, como o critério da verdade é a prática, a realidade é outra.


Na verdade, a vida dos trabalhadores e das classes médias estadunidenses só pioraram ao longo de mais de quatro décadas de políticas neoliberais. Os EUA se desindustrializaram sobremaneira e a classe média, que antes era tão decantada como uma classe pujante, não é sequer a sombra do que foi no passado. Hoje existem diversas cracolândias nas suas principais cidades e há um exército de moradores de rua, enquanto a concentração de propriedade, riqueza e renda continua crescendo. O fluxo dos resultados do sobretrabalho social continua fluindo para os bolsos de ricos, milionários e bilionários.


New Deal, de Franklin Delano Roosevelt, foi sendo dilapidado após sucessivos governos e o último projeto mais avançado que foi apresentado nos Estados Unidos foi no governo de Lyndon Johnson, denominado A Grande Sociedade. Este foi sepultado pelos gastos exorbitantes da guerra do Vietnã. De lá para cá, desde o governo de Jimmy Carter com Paul Volcker à frente do FED (Federal Reserve), o neoliberalismo foi sendo implementado, e o seu resultado é o cortejo necessário dessas políticas: privatizações, concentração inédita de renda, governo cada vez mais autocrático, pauperização dos trabalhadores e das camadas médias. O auge do neoliberalismo foi nos 1990 e foi alavancado pela especulação financeira e pela montagem de um cassino financeiro internacional interconectado por uma rede mundial de computadores.


Não foi só o Partido Republicano que desmontou Bretton Woods e o New Deal, Bill Clinton soterrou a lei Glass-Steagall, que reprimia fortemente o mercado financeiro para evitar uma nova crise como a de 1929.


O escândalo atual tende a se tornar explosivo porque tirou o véu da hipocrisia do Império mostrando que empresários se utilizaram de meninas e adolescentes numa rede de prostituição montada por Epstein.


O Estado profundo tenta impedir que este escândalo manche todo o establishment dos Estados Unidos. Epstein morre, supostamente cometendo suicídio, e há muitos obstáculos para a divulgação da lista de frequentadores das orgias e das festas organizadas por ele. Há também a forte suspeita de que essa rede foi montada para vigiar, chantagear personalidades políticas e econômicas do establishment em prol do Estado sionista de Israel.


Reihard Heydrich, lugar tenente de Heinrich Himmler, montou uma estrutura semelhante para vigiar e chantagear o alto escalão do exército alemão. Há algo de podre no Império e a tendência é que exale cada vez mais podridão com a crise do imperialismo norte-americano, ou seja, este tende a secretar, diante de sua crise, cada vez mais guerras, caos, podridão moral e política.


Emmanoel Lima Ferreira, URCA

      Frederico Jorge Ferreira Costa, UECE


Referências

GLOBO. O que é a lista de Epstein e qual a relação de Trump com o caso? G1, 24 jul. 2025. Disponível em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2025/07/24/o-que-e-a-lista-de-epstein-e-qual-a-relacao-de-trump-com-o-caso.ghtml. Acesso em: 2 ago. 2025.

segunda-feira, 21 de julho de 2025

julho 21, 2025




Trilha Sonora para um Golpe de Estado (2024)


Assista “Trilha Sonora para um Golpe de Estado” (2024). O documentário trata do papel geopolítico do jazz na época da Guerra Fria, utilizado, por exemplo, para alienar massas africanas enquanto líderes como Patrice Lumumba eram assassinados. 


A obra é testemunho de como o jazz foi instrumentalizado pelo Departamento de Estado norte-americano através das “Jazz Diplomacy Tours”, encaminhando figuras como Louis Armstrong e outros para a África, de modo a encobrir o racismo estrutural interno aos EUA, bem como projetar uma imagem positiva do país no exterior.


Além disso, ressalto nesse contexto que Lumumba foi assassinado porque os ianques pretendiam manter o controle sobre o estado de Katanga, no Congo, maior fornecedor de urânio para os EUA sob mediação da Bélgica. 


Com a independência do Congo em 1960, havia o receio estrangeiro de que, sem o urânio congolês e outros minerais estratégicos (titânio e cobalto), não seria possível manter o controle das matérias-primas essenciais para a indústria bélica nuclear. 


Não por acaso, juntamente ao soft power jazzístico exportado, propagava-se a falsa acusação de que Lumumba e o Congo estariam sob influência soviética, legitimando assim o colonialismo por procuração via Bélgica.


Já à época da Segunda Guerra Mundial, a então colônia da Bélgica foi pilhada, com o roubo do urânio por parte dos ianques. Sob ordens do beligerante Projeto Manhattan, tal material foi arrancado da mina de Shinkolobwe (no interior de Katanga) e utilizado em 1945 nas bombas “Little Boy” e “Fat Man”, lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki.


Consequentemente, para continuar a extrair indiscriminadamente o urânio, o cobalto e o titânio do Congo “independente” pós-1960, os EUA, sob o comando do ex-presidente Eisenhower, acionaram a CIA (na pessoa de Sidney Gottlieb - "Joe de Paris" - e de Larry Devlin) para dar ultimato que culminaria no assassinato de Lumumba, torturado e executado friamente. 


Em paralelo, dando vazão a essa economia de guerra (fria), os belgas também invadiram o estado de Katanga e criaram um cordão de isolamento no interior do Congo. O monopólio da produção nuclear era considerado mundialmente indispensável — e essa lógica imperialista persiste até hoje. Criaram assim um “país” artificial sob controle belga e norte-americano — ou melhor, sob controle da OTAN.


Leonardo Lima, professor