Diante dessa conjuntura, nos 85 anos do assassinato de Trotsky, 21 agosto de 1940, por ordem de Stalin, surge a necessidade de um reencontro com a obra do dirigente, ao lado de Lênin, da Revolução Socialista Russa de 1917 e organizador do Exército Vermelho, que venceu forças militares contrarrevolucionárias apoiados por catorze países na guerra civil. Trotsky conseguiu unir, em sua defesa das lições da Revolução de Outubro e do internacionalismo proletário, uma frente única composta de estranhos aliados de ocasião como liberais, conservadores, fascistas, social-democratas, anarquistas e é, óbvio, seu tenaz inimigo, o stalinismo com seu aparato burocrático. Mesmo assim, seu nome se destaca ao lado de dirigentes revolucionários e intelectuais marxistas como Lênin, Rosa Luxemburgo, Gramsci e Lukács.
Embora o nome de Trotsky, como o de Lênin, não seja palatável nas universidades, não se pode pensar o mundo atual, na perspectiva política radical da emancipação humana, isto é, do comunismo, sem dialogar com ele, adjetivado por um de seus principais biógrafos de profeta.
Esse adjetivo não foi ato de uma simples admiração de discípulo ou crença sobrenatural, mas evidência da sensibilidade analítica Trotsky em perceber a realidade com a arquitetura teórica do materialismo histórico a partir de uma imersão profunda na luta de classes de seu tempo.
Trotsky identificou, em 1905, as coordenadas do futuro processo revolucionário russo baseado na legalidade histórica do desenvolvimento desigual e combinado, o que ficou conhecido como “teoria da revolução permanente”.
Trotsky antecipou, também em 1905, a função futura dos sovietes (conselhos operários) como órgãos de auto-organização dos trabalhadores, expressão da independência de classe e a possibilidade de se constituírem como estruturas de poder.
Trotsky percebeu, na luta interna no Partido Comunista da URSS, a tendência do fracasso e isolamento da Revolução de Outubro caso vencesse a fração stalinista, representante política da burocracia emergente, com sua teoria antimarxista do “socialismo num só país”.
Trotsky vislumbrou a vitória do nazismo e, consequentemente da barbárie, como resultado das políticas divisionistas do stalinismo e da social-democracia em se negarem a construir uma frente única no movimento operário alemão para deter o crescimento das hordas nazistas.
Trotsky indicou a emergência da hegemonia do imperialismo estadunidense no sistema imperialista mundial, fruto do enfraquecimento dos imperialismos europeu (Alemanha, Inglaterra e França) e do imperialismo japonês, além das tendências para a estruturação de um “Estado forte” e a absorção das contradições mundiais do capitalismo pelos EUA.
Trotsky, em relação à China, apreendeu as contradições de seu processo revolucionário e sua dinâmica, na década de 1920, o que serviu de base para lapidar a teoria da revolução permanente, mostrando as possibilidades de revolução socialista nos países atrasados ou periféricos da América Latina, Ásia e África.
Trotsky prognosticou a inevitável derrota do movimento operário como consequência da política stalinista de “Frentes Populares” (hoje, frentes amplas) e da divisão da revolução em “etapas”, o que desarmava o protagonismo dos trabalhadores. Pois, descartando a experiência da Revolução Russa, o stalinismo reeditava as teses mencheviques de aliança estratégica com a burguesia, na década de 1930, como da França (1934-1936) e na guerra civil espanhola (1936-1939).
Essas contribuições de Trotsky ao marxismo e ao movimento operário-popular se tornaram efetivas e vigentes não só para o movimento comunista trotskista, chamado por Trotsky, em seu tempo, de bolchevique-leninista, mas para a luta de classe pelo socialismo. Isso porque a história do século XX confirmou o legado revolucionário de Trotsky.
Nos países periféricos como China, Coreia, Vietnã e Cuba, por exemplo, evidenciou-se os mecanismos da teoria da revolução permanente. A revolução socialista só foi vitoriosa porque houve um movimento interno de superação dos limites de uma revolução democrática para uma revolução socialista, implicando um rompimento estratégico com a burguesia e o imperialismo.
A lógica da revolução socialista permaneceu, também, nos países imperialistas, contra as concepções stalinistas e social-democratas. Na Europa Ocidental no imediato fim da Segunda Guerra Mundial (1945), como na França e Itália, houve um processo revolucionário que foi detido por concessões inéditas ao movimento de massas (Estado de Bem-estar Social) e pela capitulação das direções do movimento operário (PCs stalinistas e social-democracia).
A tática de Frentes Populares (frente amplas) propugnada pelo stalinismo continuou colhendo derrotas e sepultando possibilidades de revolução socialista, onde foi aplicada: na Europa ocidental no imediato pós-guerra, com Partido Comunista Italiano (PCI) e o Partido Comunista Francês (PCF), na Revolução do Cravos em Portugal de 1974, no Chile em 1970-1973, na Nicarágua em 1980 e, no Brasil no ciclo de governos do Partido dos Trabalhadores (PT).
A ausência de uma direção revolucionária internacional limitou a articulação dos processos revolucionários nacionais. Sob ordem de Stalin, a III Internacional (Internacional Comunista) foi dissolvida em 1943 para não provocar o imperialismo. O que não adiantou nada, pois em 1948 as provocações imperialistas desataram a Guerra Fria. Isso contribui para o atraso de processos revolucionários vitoriosos, que quando ocorreram não se expandiram numa perspectiva mundial, levando-os ao isolamento e à burocratização.
Os Estados operários como URSS, Leste Europeu e China chegaram a um impasse, o que levou a maioria à restauração do capitalismo, devido a crise econômica e política causada pela burocracia, camada social que tomou a direção política do proletariado. Mesmo assim, os Estados operários sobreviventes sustentam-se sobre processos revolucionários que expropriaram a burguesia e o imperialismo, garantido condições de vida para a maioria da população que cada vez mais parecem sonhos se comparadas com as condições sociais de trabalhadores até do chamado “Norte global”.
Isso que foi dito até aqui, indica como a denominada orientação trotskista, fundada nas conquistas teóricas e programáticas de um dos dirigentes da Revolução Socialista de 1917, conseguiu apanhar a linha mestra do desenvolvimento da luta de classes no século XX.
Nessa perspectiva, Trotsky ainda tem muito a disser aos trabalhadores e oprimidos no século XXI. Sua derrota política e assassinato levantam o dedo acusador para a política vencedora da fração stalinista, que conduziu o movimento comunista internacional a sucessivas derrotas, que hoje reverberam no cotidiano dos que tudo produzem.
Frederico Costa, professor da UECE